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Secretamente, às vezes gostava de desaparecer da agenda.

Estamos a entrar naquela altura do ano em que toda a gente fala de férias. Perguntamos para onde vamos, quantos dias tiramos, quando desligamos. Mas tenho dado por mim a pensar que, para muitos líderes, o verdadeiro desafio nem sequer é marcar férias. É conseguir desligar sem sentir culpa.

Confesso que, de vez em quando, imagino como seria desaparecer da agenda durante uma semana. Não ter reuniões marcadas, não olhar para o telemóvel de cinco em cinco minutos, não sentir que há sempre mais uma decisão à espera ou mais um assunto que precisa da minha atenção.

E o curioso é que este pensamento, que devia ser tão natural, vem quase sempre acompanhado por outro.

“E se precisarem de mim?”

“E se acontecer alguma coisa?”

“E se eu estiver a falhar por não estar disponível?”

Percebi, ao longo dos anos, que muitos de nós confundimos disponibilidade com liderança. Como se estar sempre presente fosse a maior prova de compromisso. Como se um bom líder tivesse de ser a primeira pessoa a chegar, a última a sair e aquela que nunca desliga verdadeiramente.

Mas será mesmo isso que queremos ensinar às nossas equipas?

Porque as equipas aprendem muito menos com os discursos do que com aquilo que observam todos os dias. Se nos veem responder a mensagens a qualquer hora, dificilmente acreditarão que o equilíbrio entre vida pessoal e profissional é um valor da empresa. Se nunca nos permitimos parar, estaremos, sem querer, a passar a ideia de que descansar é um privilégio e não uma necessidade.

Tenho pensado que talvez uma das maiores responsabilidades de um líder seja precisamente esta: construir uma organização que não viva em permanente dependência da sua presença. Não porque queira ser menos importante, mas porque liderar também é criar autonomia, desenvolver pessoas e confiar nelas quando chega o momento de dar um passo atrás.

Talvez seja por isso que desaparecer da agenda me parece uma ideia tão difícil. Não por causa da agenda em si, mas porque obriga a fazer uma pergunta incómoda: a minha equipa depende da minha liderança… ou da minha disponibilidade constante?

Não tenho uma resposta definitiva. Sei apenas que, este verão, gostava de experimentar uma coisa diferente. Não apenas tirar férias, mas permitir-me estar verdadeiramente ausente durante alguns dias, sem sentir que estou a falhar com alguém.

Porque talvez o verdadeiro desafio deste verão não seja tirar férias, seja aprender a desligar sem sentir culpa.

Por aqui, neste momento, secretamente, continuo a querer desaparecer da agenda durante alguns dias. E espero que, quando isso acontecer, a única coisa que a minha equipa estranhe seja o silencio das notificações, porque tudo o resto, continuará a acontecer!

Carla Ferreira – CEO da Factor H 

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